Safra recorde de azeite no RS: como 16 anos de olivicultura levaram à maior safra da história gaúcha

A safra 2025/2026 deve ser a maior já registrada no Rio Grande do Sul. Entenda os fatores do recorde e onde estão as oportunidades para pequenos negócios na cadeia da oliva.

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Imagem destaque do post Safra recorde de azeite no RS. Cestos com azeitonas recém-colhidas em um olival, destacando a tradição e a produção artesanal de azeite.

Qual é o tamanho da safra de azeite do RS em 2025/2026?

A produção de azeite do Rio Grande do Sul atingiu 1,17 milhão de litros em 2026, o maior volume já registrado no estado. No Brasil, a produção chegou a 1,4 milhão de litros, também um recorde, com o RS respondendo por cerca de 82% do total nacional, segundo levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Olivicultura (IBRAOLIVA).

O resultado representa uma forte recuperação após dois anos de baixa. A série recente do estado registra 580,2 mil litros em 2023, 193,1 mil em 2024 e 190,3 mil em 2025, antes de alcançar o recorde de 1,17 milhão de litros em 2026.

Por que a safra de azeite do RS bateu recorde?

O recorde tem causa multifatorial: não há um único elemento que o explique. O volume de uma safra de azeite depende, ao mesmo tempo, da área plantada e da maturação dos olivais, das condições climáticas do ciclo, do nível técnico do cultivo, da extração e da alternância natural de produção da oliveira. Entender cada fator ajuda a ler o setor com precisão.

 

Para aprofundar os dados e as perspectivas do setor, consulte o Relatório de Inteligência sobre a safra recorde de azeite no RS.

SAIBA MAIS

A base: 16 anos de expansão da área plantada

O fator mais estrutural costuma ser o menos lembrado. Entre 2010 e 2023, a área plantada com olivais no Rio Grande do Sul passou de cerca de 80 hectares para aproximadamente 6,2 mil hectares, segundo levantamento da SEAPI-RS apresentado no 2º Congresso Latino-Americano de Azeite de Oliva (João & Ambrosini, 2024). Hoje, a cultura reúne cerca de 321 produtores em 108 municípios, e parte dos olivais ainda não entrou em plena produção.

Esse crescimento contínuo é o que dá base ao recorde. Sem a expansão da área e sem a maturação dos pomares plantados na última década, o clima favorável de 2025/2026 não teria estrutura física para se converter em volume recorde. O pico de 2026 é, antes de tudo, o resultado de um trabalho de longo prazo.

O clima do ciclo 2025/2026

A oliveira precisa de um número mínimo de horas em temperatura baixa — as chamadas “horas de frio” — para florar e frutificar com qualidade. Sem esse acúmulo, a floração é fraca e a safra cai, como ocorreu em 2024 e 2025, segundo a SEAPI-RS. No ciclo 2025/2026, o cenário se inverteu: o frio veio na quantidade adequada, a floração avançou sem adversidades e a frutificação foi uniforme — combinação que o Correio do Povo descreveu como “excelente safra de oliva”.

Há ainda uma vantagem de calendário: o RS produz na contra-safra do hemisfério norte, o que abre uma janela comercial em períodos nos quais os grandes produtores mundiais já comercializaram sua safra. O clima, porém, não se controla — apenas se monitora. O acompanhamento dos dados do INMET por município permite registrar o acúmulo de horas de frio e planejar melhor o ciclo.

Tecnologia, do pomar ao lagar

O recorde também é resultado de mais de uma década de aprimoramento técnico. No pomar, o manejo evoluiu: espaçamento adequado, irrigação calibrada, controle fitossanitário preventivo e poda orientada para produtividade. Na extração, o avanço foi a prensagem a frio, que preserva os compostos do azeite extravirgem — acidez baixa, frescor e qualidade sensorial. Um fator importante para o resultado é o tempo entre a colheita e a moagem no lagar: quanto mais curto, melhor o azeite. A pesquisa aplicada sustenta essa difusão técnica, com a Embrapa Uva e Vinho atuando em cultivares, manejo e qualidade no Sul do Brasil.

Alternância de produção: por que as safras oscilam?

Um ponto técnico ajuda a interpretar os números do setor: a oliveira tende a alternar naturalmente um ano de alta carga com um ano de baixa. Somada à variabilidade climática regional, essa alternância produz oscilações fortes de safra para safra. Os dados estaduais mostram o padrão: a produção passou de 198 mil litros em 2019 para 48 mil em 2020, voltou a 202 mil em 2021, subiu a 448,5 mil em 2022 e a 580,2 mil em 2023, e recuou a 193,1 mil em 2024 (João & Ambrosini, 2024). A alternância não se elimina, mas se atenua com manejo — poda equilibrada, nutrição e controle de carga dão mais previsibilidade à produção, fator importante para planejar receita.

Política pública e qualidade certificada

Dois programas estaduais estruturaram a olivicultura gaúcha. O Pró-Oliva, criado em 2015, incentiva a produção, qualifica tecnicamente os produtores e organiza dados do setor. A Rota das Oliveiras, instituída pela Lei Estadual nº 15.309/2019, acrescentou uma segunda frente de receita ao integrar produção e turismo rural.

A qualidade, por sua vez, virou reputação. Azeites do Rio Grande do Sul figuraram entre os melhores do mundo em concursos internacionais, reconhecimento que a SEAPI-RS registra como sinal de maturidade da cadeia. Para o produtor, a certificação agrega valor por duas vias: incremento de preço em relação ao não certificado e, sobretudo, acesso a mercados mais exigentes — redes premium, restaurantes de alto padrão e canais especializados. O selo também funciona como referência de confiança para o consumidor de azeite extravirgem brasileiro de origem identificada.

Onde estão as oportunidades para pequenos negócios

O crescimento da olivicultura distribui renda e dinamiza a economia em diferentes regiões do estado. A atividade está presente em cerca de 108 municípios e em múltiplas regionais do RS — da Serra à Campanha, da Fronteira Oeste à Metade Sul —, o que caracteriza um vetor de desenvolvimento de abrangência estadual.

As oportunidades vão além da produção de oliva. A cadeia abre frentes em vários elos, boa parte deles compatível com a realidade de uma micro ou pequena empresa:

  • Extração terceirizada — prensagem como serviço para produtores sem lagar próprio.
  • Beneficiamento, embalagem e rotulagem — recipientes, lacres e rótulos para o mercado de extravirgem.
  • Turismo rural — visitação, degustação e hospedagem em propriedades ligadas à Rota das Oliveiras.
  • Gastronomia — restaurantes, harmonizações e experiências rurais em torno do azeite.
  • Varejo especializado — empórios, e-commerce e clubes de assinatura de azeites brasileiros.
  • Cosmética e derivados — sabonetes, cremes e cosméticos à base de azeite.

A integração entre produzir o azeite e receber o visitante é um dos pontos de maior valor do agroturismo: a propriedade agrega a experiência de visitação à venda do produto, com margem superior à da comercialização apenas em gôndola.

O que sustenta o setor depois do recorde

O que separa uma safra boa de um setor consolidado é a estrutura entre um ciclo e outro. A olivicultura gaúcha ganhou um marco de maturidade com o Centro de Referência em PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação) da Olivicultura do RS, criado para concentrar pesquisa aplicada e difusão técnica, conforme a SEAPI-RS. Em paralelo, a Câmara Setorial das Oliveiras articula produtores, associações, governo e pesquisa. Junto com a Embrapa Uva e Vinho, esse tripé organiza pesquisa, articulação e difusão técnica — base para que o recorde se traduza em consolidação, e não em exceção isolada.

 

imagem do post Safra recorde de azeite no RS. Vista aérea de um olival, destacando o cultivo organizado e a beleza da paisagem rural.

Como começar na olivicultura: primeiros passos

Para quem quer entrar ou crescer na cadeia da oliva, vale começar pelo que já se tem em mãos:

  • Mapeie seus recursos — área disponível, mudas, idade dos pomares e contatos com produtores ou associações locais.
  • Conheça os programas — consulte o Pró-Oliva e a Rota das Oliveiras nos portais da SEAPI-RS.
  • Converse com quem já produz — identifique produtores de referência e visite um olival da Rota das Oliveiras para observar a operação.
  • Busque assistência técnica — procure a associação de olivicultura da região e o escritório local da EMATER/RS-ASCAR.
  • Planeje o manejo de alternância — desde o início, considere poda e controle de carga para reduzir a oscilação entre safras.
  • Defina o foco do negócio — produção, agroturismo, prestação de serviço de extração ou derivados, cada um com plano de negócio próprio.

Para aprofundar os dados e as perspectivas do setor, consulte o Relatório de Inteligência sobre a safra recorde de azeite no RS.

Conteúdo escrito por:

Sebrae
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