Mel certificado: o que a rastreabilidade significa para o negócio do apicultor gaúcho
Entenda por que rastrear virou piso legal, certificar virou estratégia e como subir a escada de valor do mel.
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O Rio Grande do Sul produziu 8.064 toneladas de mel em 2024, cerca de 12% do total nacional, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE. Depois da queda da safra 2024/25, reduzida a cerca de um terço do normal pela enchente de maio de 2024, a recuperação está estimada em 11 mil toneladas na safra 2025/26, acima da média histórica, segundo a Farsul. Só que o volume volta em um momento delicado: os Estados Unidos, historicamente o maior comprador do mel brasileiro, mantêm o produto taxado em 50%. Nesse cenário, a pergunta do apicultor muda de “quanto produzo” para “o que consigo comprovar sobre o que produzo”.
Por que comprovar origem virou a chave do negócio?
A apicultura gaúcha é feita por pequenos negócios: são cerca de 32 mil produtores no RS, 70% deles da agricultura familiar, segundo a Farsul, com o mel como renda complementar típica da pequena propriedade. O Brasil exporta 56% do mel que produz, com os EUA como principal destino.
Com a tarifa americana mantida (até o fechamento desta edição, em negociação bilateral), o setor foi empurrado para a diversificação: os EUA, que respondiam por cerca de 78% das compras em 2024, caíram para cerca de 55% do volume exportado no primeiro bimestre de 2026. Quem quer acessar novos mercados externos ou vender melhor no mercado interno, precisa comprovar origem, procedência e segurança do alimento. E isso tem nome: rastreabilidade e certificação.
Rastreabilidade por apiário: exigência legal, não diferencial
Aqui vale corrigir um senso comum: para o mel inspecionado, rastrear não é diferencial, é requisito. A Portaria SDA nº 795/2023 do MAPA exige a rastreabilidade do lote até o apiário. Na prática, o entreposto pede do apicultor fornecedor: cadastro com CPF/CNPJ, localização georreferenciada de cada apiário, número de colmeias, registro no órgão estadual de defesa sanitária e tipo de apicultura, incluindo períodos de migração.
O princípio é o mesmo de toda a cadeia de alimentos: um passo atrás, um passo adiante. Todo lote aponta de onde veio e para onde foi. O caderno de campo e a nota do produtor são a versão mínima disso, e o custo envolve mais disciplina do que tecnologia.
Os selos de inspeção definem onde cada mel pode ser vendido: SIF (mercado nacional e exportação), CISPOA (comércio dentro do RS) e SIM/SUSAF (inspeção municipal e sua extensão estadual).
Certificação orgânica: o que a régua exige e quanto protege
Se rastrear é o começo, certificar é o próximo passo estratégico. A Portaria MAPA nº 52/2021 define a régua da produção orgânica de mel: apiário em unidade de produção orgânica, avaliação do risco de contaminação em um raio de 3 km (vegetação nativa ou cultivos sem transgênicos e sem substâncias proibidas), alimentação suplementar apenas com insumos orgânicos, plano de manejo e verificação por organismo certificador ou sistema participativo de garantia.
O retorno tem número, com o enquadramento exato: segundo a ABEMEL, via Sociedade Nacional de Agricultura, vender mel orgânico como se fosse convencional custa a perda de aproximadamente 30% do valor exportado. Ou seja: na exportação, o certificado funciona como proteção contra desconto.
Para a agricultura familiar, a certificação individual costuma ser mais trabalhosa. O caminho mais simples é a certificação em grupo, via associações e cooperativas, que dilui o custo de auditoria entre os produtores.

O mercado interno e a escada de valor
Enquanto a porta americana segue estreita, o mercado interno é fronteira de crescimento: o consumo per capita brasileiro é de 160 gramas de mel por ano, menos da metade de Alemanha e Estados Unidos. Procedência, florada e lote no rótulo viram argumento de venda para um consumidor que quer saber de onde vem o alimento.
O RS já tem instrumentos para isso: o Selo Sabor Gaúcho da Seapi, a Indicação Geográfica do Mel Branco de Cambará do Sul em andamento e o exemplo do mel gaúcho eleito o melhor do país no Prêmio CNA Brasil Artesanal 2024.
A decisão que organiza tudo é a escada de valor do mel, em quatro degraus: granel para entreposto, fracionado inspecionado, rastreado com origem comprovada e certificado (orgânico ou com selo de origem). Cada degrau exige mais registro e devolve mais preço e canal. Rastrear vale sempre, porque é pré-requisito dos demais; certificar vale quando existe comprador para o prêmio e o apiário fecha a régua da norma.
Por onde o apicultor começa
Três níveis de ação, do custo zero à decisão estrutural:
- Custo zero (esta semana): montar ou atualizar o caderno de campo por apiário (localização, colmeias, floradas, colheitas, alimentação), conferir o registro dos apiários no órgão estadual e medir quanto do raio de 3 km ao redor de cada apiário é vegetação nativa.
- Baixo investimento: padronizar a identificação de lote da colheita ao envase, procurar a associação ou cooperativa para avaliar entreposto inspecionado e certificação em grupo.
- Estrutural: investir em casa do mel ou entreposto compatível com o canal-alvo, iniciar a certificação orgânica quando o raio de 3 km e o comprador justificarem, e construir relação direta com quem paga o prêmio.
Quer a escada de valor completa, com normas e apoios?
O Relatório de Inteligência completo do Sebrae RS detalha as exigências da rastreabilidade e da certificação orgânica norma a norma, a escada de valor em tabela comparativa, os casos gaúchos e o mapa completo de apoios (Sebrae RS, MAPA, Seapi, Emater/RS-Ascar e cooperativas).
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